quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Nuno Craveiro Lopes. Projectando no mundo a arquitectura portuguesa



No início dos anos 50, estava em curso uma renovação do quadro de arquitectos das províncias ultramarinas, por uma nova geração com uma forte consciência colectiva alicerçada nos valores estéticos e ideológicos do Movimento Moderno. 
Estes novos arquitectos influenciaram decisivamente a arquitectura produzida a partir de então, contrariando a tendência dos colegas da década anterior empenhados em propostas de reaccionário gosto estatal. 
Deste grupo de novos intervenientes, salientaram-se entre outros Jorge e João Garizo do Carmo, Alberto Soeiro, Nuno Craveiro Lopes (chegados em 1952),  Francisco de Castro e Fernando Botelho Queiroz de Mesquita (chegados em 1953), João José Tinoco, Carlota Quintanilha (chegados em 1956), Bernardino Ramalhete (chegado em 1957) e Marcos Miranda Guedes (chegado em 1958), que  marcaram definitivamente a produção das Obras Públicas em todo o território de Moçambique até à sua independência. 

Este é um pequeno apontamento da vida e obra do arquitecto Nuno Craveiro Lopes (1921-1972), meu Pai.

Nuno Craveiro Lopes fez o serviço militar na Escola de Aviação Militar em Sintra, sendo promovido a Alferes Miliciano (1941)

Completou o curso de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa no ano de 1945 com 19 valores.
Milita no MUD Juvenil a partir de Julho de 1946, fazendo parte Comissão de Escola do MUD Juvenil da EBAL que vai congregar nomes como José Dias Coelho, Abel Manta, Lima de Freitas, António Alfredo, M. Emília Cabrita, Jorge Vieira, Bartolomeu Cid, José Croft de Moura, Nuno Craveiro Lopes, Sena da Silva, Arnaldo Louro de Almeida, Margarida Tengarrinha, Cecília Ferreira Alves, Tomás de Figueiredo, Hesnes Ferreira, Augusto Sobral, e muitos outros. 
Em 1947 o Governo desencadeia forte repressão e prende a Comissão Central e muitos outros jovens apoiantes. Dias Coelho e Nuno Craveiro Lopes, são dos mais activos nos protestos junto à sede da polícia política. João Abel Manta é detido pela PIDE em Fevereiro de 1948 e vai para Caxias. Mais uma vez Dias Coelho e Nuno Craveiro Lopes lideram um movimento dinamizador entre os colegas da EBAL, e não só, para recolha de assinaturas de protesto. Abel Manta é solto a 14 do mesmo mês.
Esteve no Serviço de Obras Militares e na sua especialidade de arquitecto, colaborou na construção do Campo Militar de Santa Margarida. Executou também algumas urbanizações em Lisboa, entre as quais um conjunto de prédios na avenida do Brasil, frente ao hospital Júlio de Matos.
Devido à sua actividade incómoda para o regime, por pressão de Salazar sobre seu pai, então Presidente da República Portuguesa, foi-lhe “sugerida” a colocação em Lourenço Marques, Moçambique. Esteve em vários países africanos a estudar urbanizações tropicais antes de ser colocado em Lourenço Marques em 1952, como Chefe do Gabinete de Urbanização das Obras Públicas de Moçambique.
Exímeo desenhador, pintor, escultor e caricaturista, de tal modo a pedido desenhava a expressão, defeitos e personalidade dos seus amigos, que poucos deles conservavam e mostravam os desenhos!
Entre várias obras que executou em Moçambique, é de salientar a igreja de Santo António da Polana construída em 1962, trabalho de grande inovação para a época, que ficou a atestar para sempre a sua memória.


A igreja de Santo António da Polana teve um primeiro projecto de 1958 feito pelo arquitecto Luís Possolo, da Direcção dos Serviços de Urbanismo e Habitação em Lisboa, segundo a tipologia comum dos projectos de gosto estatal. A ordem dos Franciscanos viria a preferir outro projecto da autoria de Nuno Craveiro Lopes, arquitecto local, que daria lugar à famosa Igreja da Polana, construída em 1962,- apesar da forte discordância da metrópole. 
A nova Igreja da Polana assumia-se como um elemento de referência na paisagem urbana, à imagem dos modelos mais arrojados da arquitectura Moderna: um objecto destacado do solo – ou simplesmente pousado sobre vértices – elevando-se numa estrutura piramidal de “pétalas” em betão armado, como uma flor invertida. O seu interior corresponde a um espaço único de planta circular, caracterizado pela presença esmagadora do betão, atenuada por entradas de luz multicoloridas que lhe escorrem pelo topo. A simplicidade interior é acentuada pela escolha minimalista de materiais de revestimento. A unidade conceptual desta obra ultrapassa a sua dimensão arquitectónica, extendendo-se ao desenho do mobiliário e aos elementos figurativos dos vitrais, cumprindo a vocação Moderna de integração das várias artes.
Conta-se a propósito da igreja de Sto António da Polana, que apesar de não ter cobrado honorários pelo seu trabalho á ordem dos Franciscanos, congregação religiosa que o contratou para projectar e acompanhar a construção da igreja, os padres desvirtuaram grande parte da beleza do seu projecto original, modificando o seu enquadramento, fazendo construir 2 "barracões" junto à igreja, para os aposentos e salão de festas, e principalmente adulterando a disposição interior do altar-mor, que ficava não onde está hoje junto a uma das paredes, mas no centro da igreja, directamente debaixo da cúpula, onde o efeito da luz ao longo do dia era mágico, refletindo-se imponentemente no chão de mármore branco que também foi trocado por ladrilhos castanhos. Ou seja, nas cerimónias os crentes ficariam sentados todos em círculo à volta do altar-mor, iluminado pelos vitrais coloridos da cúpula que se reflectiam em todo o templo, o que é conceptualmente muito mais belo e dinâmico do que o que acabou por ser imposto pelos padres no fim. Tudo isto o desgostou profundamente e fez com que cortasse relações com a congregação.
Veio a falecer de doença maligna em 1972 com 51 anos de idade após prolongado sofrimento.
A seu pedido ficou enterrado em Lourenço Marques, cidade que sempre considerou "a sua terra".

Principais projectos:
Projecto tipo de estação de serviço, difundido em Portugal continental e colónias.
Campo Militar de Stª Margarida
Conjunto de prédios da Avenida do Brasil, Lisboa (1958)
Barragem de Cambanbe, Angola
Plano de urbanização do Centro Cívico do bairro residencial da Manga, Beira, Moçambique
Exposição das Actividades Económicas de Moçambique em Lourenço Marques (1957)
Edifício Sede das Associações Económicas de Moçambique em Lourenço Marques
Edifício Sede do Montepio de Lourenço Marques, Moçambique
Igreja do Sagrado Coração de Jesus do Chibuto, Moçambique
Igreja da Polana, Lourenço Marques, Moçambique
Clube de Pesca Desportiva de Lourenço Marques, Moçambique
Banco Nacional Ultramarino na cidade de Salazar, Moçambique
Várias urbanizações, edifícios de rendimento e moradias em Moçambique

1 comentário:

  1. Vivi, com os meus pais e irmãos, na esquina da Rua de Nevala com a Av. Couceiro da Costa, de 1962 a 1973, quase em frente à Igreja da Polana, onde fomos escuteiros.

    Ontem, encontrei uma foto, que lhe enviei por mail, cuja legenda é esta:

    « Os arrumadores de um cinema de Lourenço Marques têm, como habilitações mínimas, a frequência de uma universidade… A ganhar 60 escudos por sessão, como qualquer outro arrumador, estes cinco jovens trabalham apenas à meia-noite de sexta-feira e sábado, durante o tempo de férias. São todos lourenço-marquinos, Albertino Adamasceno, Ricardo Santos, Abdul Razak, António Nogueira da Costa e Nuno Craveiro Lopes, e dizem-nos que “a malta precisa de uns cobres para viajar e pensou que isto de arrumador deve dar muita gorjeta”, e aí estão a trabalhar e a servir de exemplo para muitos outros estudantes que não sabem que fazer nas férias.» “Notícias” de Lourenço Marques, de 21.8.73.


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